domingo, 13 de março de 2011

Palavras perdidas em meio ao silêncio.


Você. Eu. Uma cama. Suor. Sexo. Ofegar. Piscar de olhos. Carícias. Por que essas perguntas no teu olhar? Sua mão contornando as curvas do meu corpo e provocando arrepios de uma brisa fria. Desvio. Oscilação. Receio. Medo. Encolher. Reprimir. Casulo. Refúgio. Válvula. Esconderijo. Proteção. Capa. Você leva a sua mão lentamente ao meu cabelo, aproxima o seu corpo do meu. O seu sexo no meu. “O que é que acontece?”, você pergunta. “Eu não sei”, minha resposta prática e simples. Clichê. Dificuldade em se expressar. Não saber o que falar. O que sentir. O que deveríamos fazer pra sermos considerados normais?

Levanto-me. Vazio. Pés no chão. Cansaço. Eu poderia desmaiar. Drama. Não. Melhor evitar. Vou até a lareira. Agacho-me, encolho-me, esquento-me. Espero-te. Você se aproxima, se senta do meu lado e deixa o silêncio permanecer. Esse silêncio que não diz nada, mas diz tudo. Cortante, dilacerante, perfura a garganta e insiste em sair. Mas nenhum dos dois quer consumar o ato.

Uma lágrima. Mais outra. Lágrimas de amor. Dor. Horror. Rotina. Cansaço. Eu havia lhe dito para não entrar nessa. Nessa de se afundar comigo. Fossa. Eu lhe avisei que eu preciso de alguém para me acompanhar. Alguém que se arrisque. Segurança. Coragem. Entregar-se. Você retira uma mecha do meu cabelo da minha lágrima. Respira fundo. “O que é que eu faço com você, mulher?”, você já deveria saber a resposta. “Eu não sei”. Você se deita no chão. Essa situação não te preocupa? Eu me enterro e você não move um dedo para me segurar. Deito-me ao seu lado. Esses momentos poderiam durar para sempre.

Instabilidade. Introversão. Ingenuidade. In. Imbecil. “Eu acho que já é hora”, será que você percebeu? Finalmente percebeu que já é hora? Tarda. Tarda, mas não falha. Meus olhos vão de encontro aos seus. Tento conter a vermelhidão na pupila e na bochecha. Mais outra lágrima quente e salgada desce. Transparente, pequena, invisível. Você, como sempre, não nota. Veste o seu casaco, coloca a sua calça. Vejo você ajustar o seu sexo por dentro da roupa sem cueca. Objeto. Eu não deveria deixar isso acontecer mais. Não irá. Eu sei. Já é hora. Tarda. Mas não falha.

Levanto-me, recomponho-me. Te levo até a porta, porque não? Gentileza. Nunca foi usado aqui. A chama da lareira se apaga. Tic-tac, tic-tac. Nesse silêncio que borbulha em nossas mentes o tic-tac do relógio só se intensifica. Você para em frente a mim e não precisa dizer mais nada. Ameaço fechar a porta e você encosta a sua mão levemente. Meu frágil coração bate mais forte pensando ser a última possibilidade, a possibilidade de reatar tudo o que nós queimamos juntos nesses dias surrados pelo silêncio. Sua mão se estende até a minha nuca, você sela os meus lábios e volta a me olhar. Agora com um pouco de sinceridade. Mas eu conheço essa tua mentira. “Eu te amo”, você diz. Tento não me deixar levar. “Adeus”, reconforto o meu coração, na intenção de destroçar o seu.

Intenções. Nenhum de nós queríamos que terminasse aqui. Terminou. Faltou a entrega. Adeus.


( Cinismo e Utopia )

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