segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

apertei o caule da rosa


  

Já era a terceira música lenta que tocava ali, eu contei. Meu sorriso começava a transmitir a desconfiança que eu já havia sentido no momento que percebi que ele não estava por lá, e meus olhos, que aparentemente estavam cheios de esperanças, pareceram ficar secos demais para distinguir os nomes dos casais que dançavam com seus corpos colados enquanto a música que ali passava os envolvia. Resolvi sentar. O cansaço nas pernas que não veio enquanto eu esperava firme por sua chegada, pareceu chegar agora que tudo foi preenchido por lacunas da incerteza, e chegou de vez, e minhas pernas não pareceram mais o porto seguro ou alicerce que eu poderia me fundamentar. Apertei o caule da rosa que eu segurava em minhas mãos. Era pôr-do-sol lá fora, mas aqui já estava escuro – e frio. Os olhares diversos que eram lançados para mim começaram a me irritar, e como grãos de areias que erosam uma rocha, os olhares foram tirando minha paciência aos poucos, até chegar a um ponto em que eu achei que meu interior estava exposto demais. Peguei o celular e liguei. Esperei que sua voz cortasse aquele som que se assemelhava com lerdas batidas do meu coração, mas o “tututu” foi único e mortal; meu celular voltou para o bolso, e engoli em seco quando não sabia mais para onde olhar sem me constranger. Fiquei apoiado ao lado da porta de saída, que era a mesma da entrada, e o motivo não era tão óbvio quanto eu achava que seria. Eu esperava por você – pouco, mas ainda sim-, mas acho que a razão real de minha permanência naquele lugar era minha vontade de sair sem ser notado; quando todos não tivessem olhando para mim, sairia daquele lugar como se não tivesse entrado. A quarta música lenta tocou naquele baile, eu contei. E agora o sol já se escondia por entre as nuvens e as montanhas, algo que fazia que com que tudo parecesse uma paisagem única – e era. Certa vez, ouvi falar que o tempo é uma coisa inventada pelo homem, e o tempo real era uma coisa estática; tão estática quanto as águas de um lago calmo; tão quieta e infinita, que parecia um pôr-do-sol visto por um casal de amantes. Amantes que não poderia ser eu e você, concluí. Alguns casais já começavam a sentar em seus lugares e formar grupos de conversas. Não sei quem, mas alguém deve ter lembrado que eu ainda estava naquela festa, e deve ter olhado para a saída e pensado em me chamar. Para surpresa deles, eu penso, nada mais foi visto além das últimas balançadas da porta de pressão, que não conseguiu fechar por causa de uma rosa que, murcha, machucada e desmembrada, pousava morta entre a luz branca do corredor e o escuro do local da festa. Meus passos eram rápidos e firmes em direção à noite. Você não viria, eu concluí. Talvez aquilo que estava escorrendo por meus olhos não fossem lágrimas, mas, sim, a culpa por ter desistido tão cedo. Não consegui dançar comigo mesma.

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