quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
e uma garrafa de Jack Daniels
Eu sinto um forte martelar em minha mente e posso ouvir a cada segundo o barulho do tic-tac do relógio aumentar. É como se tudo rodasse ao meu redor e a única coisa que eu precisasse fosse os meus remedinhos. Olhei pra onde eu estava, senti o cheiro forte da bebida e logo em frente, na mesa, uma chicara de café apenas com a borra ao fundo. Ele passou por aqui.
Eu me sinto machucada em algum lugar, só não sei dizer onde. Debrucei-me na mesa e pude perceber que haviam algumas gotas de sangue. Eu me machuquei, novamente. Não é como se eu pudesse me controlar, como se eu pudesse evitar isso. Eu apenas tento causar a dor física para tentar sanar a dor interna. E todas as vezes que ele vem aqui, faz o mesmo: joga o passado em minha face, diz o quanto eu acabei com a vida dele, me toma nos seus braços como se tivesse esquecido o que disse e depois vai embora. Deixando-me sozinha, com as minhas únicas companhias. As drogas.
É compulsivo. Cheiro uma, injeto outra. De uma vez, sem dó. Tento me levantar nesse momento e parece que o mundo está sobre minhas costas. A geladeira é logo ali e provavelmente há algo que possa me fazer ficar melhor. Vou até ela, tento abri-la e lá eu vejo uma garrafa de Jack Daniel’s que tanto me faz bem. Pego-a, abro-a e volto pra mesa agora com o maço de cigarros na mão. Abro, pego um, acendo o isqueiro e dou uma tragada. Forte, profunda e intensa. Assim como a minha dor mental.
Dou alguns goles, penso no quão inútil minha vida é. Uma escritora qualquer que ganha uma merda, vive sedentariamente e tem uma vida emocional mal resolvida. E fuma algumas drogas. Esse hábito eu peguei com ele. E é estranha essa minha necessidade por ele. Essa dor causada por não tê-lo aos meus braços. Essa dor por ter tirado-o da sua vida normal e bagunçado tudo o que havia de concreto pra ele.
Minha alegria costumava estar junta as coisas que ele dizia e as drogas que nós fumávamos. Tudo com ele era mais intenso e divertido. Fazíamos sexo enquanto ouvíamos nossas músicas preferidas e, às vezes, enlouquecíamos e quebrávamos tudo. Não que isso seja uma vida saudável, mas era a nossa vida. A minha vida com ele. Nós nunca nos permitíamos ficar tristes. Éramos o refúgio um do outro, um escape contra o mundo. Se nós estivéssemos a sós em uma casa, fazíamos dela o nosso paraíso. A nossa bolha que nos separava de todo mundo.
Perco-me em milhares de devaneios e lá vou eu tentar levantar novamente. Apoio-me na mesa, sinto milhares de corpos sobre o meu e vou pro meu quarto que é logo ali. Atiro-me na cama, sinto o cheiro dele e assim eu durmo, como faço todas as noites que ele vem – ou não – aqui: dopada, sangrando, imunda, inconseqüente, doendo e infimamente apaixonada por ele. Do jeito que eu não deveria estar.
( Cinismos e Utopia )
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